Músicas:
1. Summer of Love - John Fogerty;
2. Let It Be Now - Survivor;
3. New Feeling - Talking Heads;
4. Too Hot to Sleep - Survivor;
5. Swamp River Days - John Fogerty.
§1. Tentando me organizar
Passei o natal em Cupira. Eu precisava botar a cabeça no lugar, recuperar meu foco e estudar. Minha primeira meta para 2010 foi ler, até 31 de janeiro, todo o livro-texto adotado em Cálculo 4: Equações Diferenciais Elementares e Problemas de Valores de Contorno (de Boyce & DiPrima). Nos primeiros dias do ano, estudei pouco. Depois de tanto tempo sem estudar sério, era difícil se concentrar. Voltei ao Recife em 04/01/2010, para organizar o apartamento, malhar na academia e tratar de assuntos pessoais.
Em 05/01/2010, me preparei para ir à academia da UFPE, mas chegando lá, estava tudo fechado. No dia seguinte, liguei para a secretaria da FADE/NEFD/UFPE e me disseram que a academia havia entrado em recesso, por isso não abriria até o dia 11 de janeiro. Eu já estava destreinado e ainda tive que esperar mais uma semana para voltar a malhar. Enquanto isso, só pude correr.
O PC do apartamento em Recife estava funcionando, mas eu evitava usa-lo, para não ter raiva (pois ele podia quebrar a qualquer momento). Além disso, entre os dias 6 e 10 de janeiro, estive sem internet. Essas condições de certa forma, foram favoráveis aos meus estudos, porque assim eu pude me concentrar melhor. Em 10/01/2010, estudei o equivalente a cerca de 8h em intensidade boa. Foi meu primeiro grande dia de estudo naquele ano. Mas a média de páginas do Boyce que eu lia por dia era apenas metade do que eu deveria ler para cumprir minha meta, pois eu passava muitos dias sem pegar no livro.
§2. Perseguição no Atacado dos Presentes
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| Figura 1: Atacado dos Presentes, na Conde da Boa Vista. (Foto baixada do site da loja.) |
Em 12/01/2010, à tarde, eu fui ao Centro do Recife, para comprar um fone de ouvido para o meu celular, uma balança para banheiro e uma caneta de marcar CDs. Passei no Atacado dos Presentes, peguei a caneta e comecei a procurar a balança. Enquanto passeio pela loja, um cara aparece do nada, comenta comigo alguma besteira sobre uma determinada mercadoria e vai embora. Eu continuo procurando a balança: um funcionário diz que é no segundo andar, outro diz que é no térreo... subo andar, desço andar... enquanto isso, começo a perceber que aquele cara sempre aparece onde eu estou. Complico um pouco a minha trajetória para me certificar de que ele não estava me seguindo. Mas, estranhamente, ele continuava aparecendo em quase todos os corredores por onde eu passava, de forma cada vez mais notável.
O sujeito era mulato, meio robusto, tinha uma expressão meio rude, o sorriso não convencia, usava uma camisa preta, uma bermuda cheia de bolsos, calçava um par de tênis e não tinha jeito de gay. (Se me apresentassem, hoje, um grupo de dez pessoas, entre as quais estivesse aquele cara, acho que eu o reconheceria.) Tenho a impressão de que quando ele apareceu e falou comigo, ele estava acompanhado de outro rapaz. E depois disso, quando ele já estava sozinho, eu o vi falando ao celular. Em certo momento, após despista-lo, pensei em sair da loja, mas achei melhor ficar até entender o que estava acontecendo: vai que tem alguém esperando por mim na rua... Quando subo novamente até o segundo andar, passando pelo primeiro, ele me vê de longe, tenta disfarçar, mas só pela forma como ele olhou, eu já gelei. Era nítido que ele estava atrás de mim, sabe-se lá por quê. Minutos depois, ele aparece no segundo andar e continua me perseguindo, agora ainda mais de perto, para não me perder de vista novamente. A situação já era bastante amedrontadora.
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| Figura 2: Interior da loja. (Foto baixada do site da loja.) |
Às vezes, eu parava, fingia estar examinando uma mercadoria qualquer (e.g., uma frigideira), quando olhava para o lado, lá estava ele, num raio de 5m, examinando, por exemplo, uma boneca. O tempo passava e ele parecia estar ficando impaciente. Eu só fazia andar, tentando elaborar uma estratégia. Pensei em escrever um bilhete (com a caneta de marcar CDs) e deixar com algum funcionário da loja, sem que o perseguidor percebesse. Antes mesmo de concluir se eu deveria ou não fazer isso, comecei a anotar meu pedido de ajuda (só para ver se eu teria coragem), mas eu não podia escrever quatro letras em sequência, que o meliante aparecia. Então, depois de uns 30min de perseguição, eu me arretei: "Que saco! Vou falar com esse indivíduo agora". Quando ele passou por mim, eu olhei na cara dele e disse:
– Opa, rapaz.
– E aí, rapaz [estendeu a mão, me cumprimentando]. Tá... fazendo umas comprinhas?
– É.
– Vai comprar o que?
– É... eu peguei uma caneta... tava procurando uma balança...
– Uma caneta?! Haha. Eu vim comprar uma boneca, oia! E pra onde tu ia, eu ia; não sei por quê. Qual é o teu nome?
Nessa hora, eu pensei: "Não devo dizer meu nome verdadeiro. Então... vejamos, um nome simples e comum..."
– João.
"Droga! Esse é o meu verdadeiro nome!", pensei.
– Ah! João! O meu é Jairo. É o... "jota-jota"! Hehe. E aí, João, fazendo o que atualmente? Estudando, trabalhando...
"Ok, chega de papo, vou chamar o segurança agora", pensei.
– É isso aí. [Me retirei.]
– Já vai?
Continuei andando, para ver se ele continuaria me seguindo. Coração a mil. Vi um cara falando ao celular, dizendo, atrás de uma prateleira: "Tá ali, tá ali. Isso, ele tá ali. Entrou na prateleira agora". Estranho. Mas o outro, que estava me perseguindo, parecia ter desaparecido. Liguei para Odair (que estava em Cupira), contei a história, perguntei o que ele achava que eu deveria fazer. Ele me recomendou sair pelo estacionamento. Após um tempo caminhando na loja, para um lado e para o outro sem ver nada suspeito, fiquei mais calmo. Passei no estacionamento, não vi nada de estranho, mas preferi ir olhar como estava a saída principal. Tudo aparentemente normal. Vi que a parada do ônibus que eu pego é logo em frente da saída principal, então decidi sair por lá. Paguei a caneta e atravessei a rua. Com pouco tempo, passou o ônibus Cidade Universitária. Subi nele e fui para casa, ainda meio desconfiado.
À noite, tentei ligar para o Disk Denúncia, mas a ligação ficava muda, só fazia consumir meus créditos. Perto da hora de dormir, eu sozinho em casa, silêncio total... o telefone toca. Eu me assusto logo. O número de quem liga não é exibido. "Alô.", eu atendo. Ninguém fala, e a ligação é encerrada. Eu digo: "Pronto, é hoje que eu não durmo, com medo".
Não sei o que aquele cara queria de mim, me perseguindo. Uma das minhas hipóteses era que ele estava atrás do meu celular (Fig. 3), porque antes de eu entrar no Atacado dos Presentes, eu havia retirado o celular do bolso para mostra-lo a um camelô (na esquina entre o Shopping Boa Vista e a dita loja) a fim de que ele me vendesse (se tivesse), um fone de ouvido para aquele modelo. Como eu tenho cara de mané e estava sozinho, eles (o que me perseguiu e o que possivelmente estava me esperando fora da loja) podem ter me considerado uma presa fácil.
Quando contei essa história mais detalhadamente a Odair, ele perguntou se o cara que estava me perseguindo era um galego, de paletó e chapéu preto (Fig. 4). Não, eu não sou esquizofrênico.
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| Figura 4: William Parcher, o supervisor misterioso de John Nash, no filme Uma Mente Brilhante. |
§3. Casamento de Odair
Quando eu fui morar em Recife, em 2006, eu achava que quando Odair se formasse, eu iria ficar lá morando sozinho. Então, sempre que ele fazia raiva, essa era a minha esperança: "Em 2008.2 eu estarei em paz, morando sozinho". Passei a aguardar ansiosamente essa data. Mas, depois que Odair se formou, ele inventou de fazer mestrado. Aí eu me senti como Jacó, que trabalhou 7 anos de graça na casa de Labão para poder casar com Raquel (filha de Labão) e ao final desse tempo, o sogrão disse: "Calma lá, você vai casar primeiro com Leia (irmã mais velha de Raquel). Trabalhe mais 7 anos de graça para mim, que eu deixo você casar com a outra." (Gênesis 29 e 30.)
Em 2010, uma nova esperança surgia. Odair iria casar e morar em Cupira, pelo menos alguns dias por semana (incluindo sábado e domingo). Assim, meu quarto na casa dos meus pais ficaria só para mim (nada de ser acordado de madrugada com ele chegando, acendendo a luz e fazendo barulho, nada de precisar ir para a garagem ou para o quartinho quando eu quisesse estudar) e, em Recife, eu teria pelo menos metade de cada semana em sossego total (nada de panelas batendo ao lado do meu quarto justo na hora de eu dormir, nada de críticas arrogantes sobre meus planos profissionais, minha conduta acadêmica, ou a quantidade de leite em pó que eu deveria usar para preparar um copo de leite).
O casamento foi realizado em 23/01/2010.
| Figura 6: Eu e meus primos, Denis e Fernando (da esquerda para a direita), na recepção do casamento de Odair. |
Em 24/01/2010, voltei para Recife de carona com um vizinho meu, lá de Recife, que tinha sido testemunha no casamento de Odair. Àquela altura, eu já tinha desistido da primeira meta do ano: ler todo o livro-texto de Cálculo 4 até o fim do mês. Parei mais ou menos no início capítulo 5. O tempo que eu vinha dedicando ao estudo era insuficiente, o assunto estava ficando difícil, e eu achei que precisava revisar sequências e séries antes de continuar a leitura do Boyce.
§4. Pane no HD
No restante do mês de janeiro, limpei e reposicionei alguns móveis e eletrodomésticos no apartamento. Também editei e organizei arquivos do computador para grava-los em DVD. Antes que eu terminasse de organizar minha coleção de e-books para fazer o back-up, o computador voltou a apresentar problemas, desta vez diretamente ligados com o disco rígido: o Windows não reconhecia o HD. O que eu não lembrava era que eu já tinha salvo pelo menos uma parte satisfatoriamente grande dos meus e-books, desorganizados mesmo, em um DVD regravável (ainda bem).
Em 01/02/2010 (uma data palindrômica), eu devolvi o Stewart (por onde tinha estudado sequências e séries) e peguei o Guidorizzi Vol. 1, na biblioteca, para dar uma revisada geral em Cálculo (e/ou Análise). Nesse mesmo dia, tentei reinstalar o Windows no computador, para ver se ele voltava a funcionar. Mas a instalação travou: o computador passou a noite inteira ligado e nada.
§5. Quente demais para dormir
O verão de 2010 foi um dos mais quentes que eu lembro. Em Recife, mesmo com ventilador, eu só conseguia dormir lá para as 2h da manhã. Durante o dia, quando queria estudar, eu ia para a biblioteca do CCEN, aproveitar o ar condicionado. E à noite, em casa, eu ia para a sala, abria a janela (que dá para a rua, e, portanto, deve ser mais "ventilosa" que a do meu quarto) e ficava lá estudando até a hora de dormir.
Nas duas primeiras semanas de fevereiro, foquei meus estudos em limites. Em particular, tentei generalizar, juntando-as em uma só, as demonstrações de teoremas do tipo
"Em determinadas condições, o limite de f(g(x)) quando x tende a p de determinada maneira (pela esquerda, pela direita, bilateralmente...) existe e é igual a f(g(p)). Reciprocamente, se o limite de f(g(x)) quando x tende a p de determinada maneira (pela esquerda, pela direita, bilateralmente...) existe e é igual a f(g(p)), então determinadas condições ocorrem.",onde p pode ser, inclusive, mais ou menos infinito. Minha abordagem era em linguagem matemática de "baixo nível", i.e., muito formal, próxima do cálculo de predicados de primeira ordem. Naturalmente, eu fui levado a usar algumas formas de deduções lógicas, tais como
- ∀x(P(x) → Q(x)) ∴ ∀xP(x) → ∀xQ(x);
- ∃xP(x) ∧∀xQ(x) ∴ ∃x(P(x) ∧Q(x)).
Isso me despertava o interesse em entender de uma vez por todas como formalizar a matemática com a lógica de primeira ordem. Não consegui concluir meu projeto de unificar as demonstrações sobre limites de funções compostas. Uma das dificuldades que eu encontrei foi o tamanho das sentenças com as quais eu lidava; era muito trabalhoso escreve-las à mão, e os erros eram inevitavelmente frequentes. Senti falta de um computador para ajudar na escrita.
§6. Carnaval 2010 Em 06/02/2010, influenciado pela namorada, fui com ela a um bloco de carnaval, em Recife: "Acorda pra Tomar Gagau". Semanas antes, quando começaram a me chamar, eu tinha certeza que aquilo seria uma porcaria, então deixei claro que eu não iria. Mas a insistência foi tanta, que eu pensei: "Vai ser só uma tarde... não vou perder muita coisa... talvez eu deva ir só para ver como é". E eu vi bem como é. Milhares de pessoas amontoadas na rua, sorrindo feito dementes, mamadeirinhas alcoolizadas para tudo que é lado, sons de carros ligados em cada esquina, um barulho ensurdecedor [isso é só o início]... Pensei: "Tá, cadê o bloco? É isso? O que é que se faz aqui? Ou melhor, o que é que eu estou fazendo aqui?".
Fomos à procura de uma amiga nossa que disse que iria estar lá. Liguei para ela, ninguém atendia. Começamos a andar, passamos pelo meio da multidão, um aperto extremo, muitos cretinos por metro quadrado. Minutos depois, numa região menos populosa, encontramos Papel, tomando uma lá com os amigos. Falei com ele e fiquei por lá um tempo. Nessa hora, eu ponho a mão no bolso e não encontro meu celular. Procuro de novo, olho em todos os bolsos... nada. "Meu celular.", falei em voz alta. Refizemos o trajeto para procura-lo, passamos no supermercado Pão de Açúcar (onde havíamos parado antes de passar pela multidão) para ver se eu havia deixado ele lá, mas não encontramos sequer um policial na rua, quanto mais o meu celular. Então esta era a dura realidade: meu celular havia sido roubado do meu bolso apertado, em um instante de distração, como mágica.
Enquanto isso, a bagaceira "cumeno no cento": um gordinho requebrando em cima de um carro, no meio do povo, alguns jovens delinquentes escondendo uma sacola de loló debaixo de outro carro... Quando já estava escurecendo, encontrei, por acaso, Edgar e Gilson chegando para a gandaia. Depois, sentei na calçada e fiquei lá, inerte, só esperando minha cunhada para ir embora.
Antes de voltar para casa, me dirigi ao outro extremo da cidade, passei na casa de uma aluna minha, no Barro, para avisar que eu estava sem celular, que iria para Cupira no dia seguinte e que por isso não poderia dar aulas naquele fim de semana. As ruas por onde eu passo para chegar até a casa dela são meio esquisitas, principalmente à noite, e nesse dia, teve até uma perseguição policial: várias viaturas passando em alta velocidade, com populares indicando uma direção a seguir, provavelmente a de um fugitivo.
Peguei o ônibus Barro/Macaxeira na estação do metrô, desci perto da minha casa, passei no posto para comprar comida e liguei para Odair de um orelhão para contar o ocorrido. Quando finalmente cheguei em casa, mais de 21h, liguei a televisão, estava passando o filme Tropa de Elite (nos intervalos da cobertura das festividades carnavalescas). E a frase do dia foi dita pelo Capitão Nascimento: "O pior é que mesmo eu sabendo que ela está errada, eu termino fazendo o que ela diz".
Em 07/02/2010, eu testei o HD do PC de Recife no PC de Cupira e, com isso, confirmei que o problema era mesmo no disco rígido. Em 08/02/2010, meu pai comprou, em Caruaru, um celularzinho chinês mais simples, para me dar como substituição do que havia sido roubado. Minhas reservas monetárias já estavam chegando ao fim, eu precisava dar aulas. Retornei ao Recife em 09/02/2010 (possivelmente para dar aulas) e, em 12/02/2010, voltei para Cupira de carona com Odair. Nesse vai e vem, já fazia cerca de uma semana que eu não parava para estudar.
Em 14/02/2010 (domingo de carnaval), tentei provar o Teorema do Anulamento (de Bolzano) tomando o supremo c do conjunto {x ∈ [a,b] | f(a)f(x) > 0} e mostrando, pelo Teorema da Conservação do Sinal, que f(c) = 0. Existem estratégias melhores, mas essa foi a que eu tive primeiro, então eu quis fazer assim, custe o que custar. E custou muito. Passei mais de uma semana para concluir a demonstração.
Nota matemática #9 - Conservação do Sinal e Teorema do Anulamento
Também em 14/02/2010, eu comecei a sentir os primeiros sintomas de uma doença estranha (pelo menos para leigos na área de saúde, como eu), de múltiplas causas possíveis (não completamente determinadas no meu caso) cujos detalhes fogem dos propósitos deste texto. Nada grave, desde que tratada adequadamente. E não é contagiosa. Tive que ficar em casa, de repouso, por vários dias (Fig. 7). Para me distrair, fiz uma paródia do logotipo do Orkut (Fig. 8). Fui ao médico, tomei remédios e com uma semana desde o início da doença, eu já me sentia melhor.
| Figura 7: Eu, doente, em casa. (Cupira, 17/02/2010.) |
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| Figura 8: Uma paródia do logotipo do Orkut, feita por mim em 17/02/2010. |
§7. Últimos dias antes de 2010.1
Em 23/02/2010, eu fui ao Recife para dar aulas e procurar clínicas que fizessem os exames prescrevidos pelo médico. Dei uma volta de carro com Odair, pesquisando preços, mas preferimos deixar para marcar os exames em Caruaru mesmo. Eu ainda estava seguindo o tratamento médico, não podia fazer esforços, tive que dar aula na minha própria casa. O aluno era um economista que desejava revisar cálculo para o mestrado. Em 27/02/2010, voltei para Cupira de carona com Odair. No meio do caminho, o pneu estourou, quebrou o para-choque, arranhou a lataria e o carro teve que ser parado bruscamente. Ninguém se feriu. Felizmente, tínhamos um estepe (careca, mas melhor do que nada) e pudemos continuar a viagem.
Em Cupira, eu tentei demonstrar (sem olhar o livro) o teorema que diz que toda função continua f, definida em um intervalo fechado, é limitada. Primeiro, consegui provar que, para todo ponto p do domínio de f, existe uma vizinhança de p onde f é limitada. Para simplificar a linguagem, defini que uma função satisfazendo essa condição seria dita localmente limitada. (Eu nem sabia que a expressão "localmente limitada" já existia na literatura matemática.) Um ou dois dias depois, consegui provar que toda função localmente limitada é limitada. (E eu nem sabia que essa era uma questão clássica de análise na reta.)
No dia primeiro de março, estive em Caruaru para fazer os últimos exames prescrevidos pelo médico. Enquanto esperava para ser atendido, sentado, lendo o Guidorizzi Vol. 1, ouvi um celular tocando Sultans of Swing, de Dire Straits. Quando olhei, vi uma senhora entrando na clínica e retirando da bolsa um Motorola V3, idêntico ao que havia sido levado de mim pelos assaltantes, em 12/06/2009. O curioso é que o ringtone que ela usava naquele celular era um dos que eu tinha no meu V3; não só a música, mas também o trecho que tocava. Fiquei com vontade de falar com ela, perguntar onde ela havia adquirido aquele celular, mas não tive coragem. Os resultados dos exames sairam na hora: tudo certo, eu já estava curado.
Quem terminou não se curando foi o velho PC de Recife. Eu desisti do caso dele, mandei Odair leva-lo embora, ganhei mais espaço na minha mesa e utilizei o tempo que eu gastaria com ele para estudar por livros mesmo. Também desisti da academia: os horários eram muito restritos, eu estava faltando muito, principalmente depois de ter ficado doente. O pior é que eu já tinha adiantado algumas mensalidades, então acabei desperdiçando mais dinheiro; eu precisava controlar meus gastos.
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