Músicas:
1. Slunky - Eric Clapton;
2. Working Man - Creedence Clearwater Revival;
3. Bootleg - Creedence Clearwater Revival;
4. Time - John Kay & Steppenwolf;
5. Only the Strong Survive - John Kay & Steppenwolf;
6. The Word Hurricane - Air.
§1. Recapitulando
Em 2008.2, eu estava animado com o início da minha graduação em matemática e queria por fim à bagunça na minha vida acadêmica, iniciada em 2006.1. Sentindo falta de tempo para estudar, apelei a técnicas de redução do tempo de sono, mas isso não deu muito certo. Tive problemas com química, cheguei a me conformar em ir para a final, mas milagrosamente terminei passando por média em todas, e ficando com 8,0 de média no período. Depois desse susto, senti que nunca mais deveria correr risco de ir à final. Mas eu também precisava descansar. Durante as férias 2008-2009, fiz bastante coisa além de estudar; quando estudei, o fiz de forma despreocupada com as prováveis abordagens que seriam adotadas pelos professores.
Comecei o segundo período com vontade de estudar violentamente, mas nos primeiros dias, perdi muito tempo organizando o apartamento, e certas restrições orçamentárias logo me fizeram começar a me preocupar em ganhar dinheiro. A internet me fez perder bastante tempo (mais do que antes porque o computador agora estava no meu quarto), mas foi através dela que encontrei uma oportunidade profissional que poderia deixar minha vida financeira bem mais confortável a partir de então. Ao final de 2009.1, minha situação era tranquila em três cadeiras, porém periquitante em outras três, nas quais eu corria risco de reprovar. Faltei provas, fiz segunda chamada sem merecer, e com uma ajudinha dos professores, terminei passando em todas. Mas dessa vez, a sensação de culpa foi maior do que a de alívio. Eu precisava tomar juízo.
§2. Carga pesada, pela terceira vez consecutiva
Ao final do segundo período, eu tinha decidido que iria pagar só três cadeiras e adiantaria os assuntos de outras estudando sozinho. Mas quando chegou perto do dia da matrícula, eu pensei: Eu não preciso me preocupar tanto em não ir à final, porque meu histórico já está bagunçado; o importante agora é me formar o mais rápido possível; nos últimos dois períodos, eu apanhei um bocado, mas terminei passando em todas; se eu me matricular em muitas cadeiras de novo, provavelmente vai acontecer a mesma coisa, vou ganhar muita carga horária com notas não muito boas, e isso é melhor do que ganhar pouca carga horária com notas boas. Então decidi me matricular em
- Cálculo Diferencial e Integral 4;
- Análise 1A;
- Álgebra Linear 2;
- Cálculo Numérico;
- Introdução à Topologia 1.
§3. Dinheiro para o básico
Nos primeiros dias de aula, eu pretendia espalhar pela UFPE, e talvez por outros lugares públicos, o seguinte anúncio:
| Figura 1: Anúncio Sophismata, modelo simples. |
Cheguei a colocar alguns no mural do CCSA: umas 18h, um monte de gente passando pelos corredores, e eu lá tentando pregar meus anúncios sem material adequado, aproveitando as tachinhas e pedaços de durex que encontrava lá mesmo.
Os fregueses só começaram a aparecer no final de agosto, e foi através do anúncio da internet, não por causa dos cartazes impressos. No início de setembro, comecei a dar aula regularmente a um rapaz, na biblioteca do CCEN, cobrando 5,00 por cada hora de aula mais uma taxa fixa de R$ 1,50. Muitas vezes, eu faltava aula de Álgebra Linear 2 para ensinar. Quando eu comentava com meus colegas que estava dando aula por esse preço, todos ficavam espantados, dizendo que eu deveria cobrar no mínimo R$ 15,00 por hora. Mas, primeiro, eu achava que o que eu estava cobrando era um preço mais ou menos justo, já que eu ainda não tinha muita experiência como professor. E, segundo, se com aquele preço já não estava tão fácil arrumar alunos, cobrando mais caro eu não iria ganhar dinheiro nem tão cedo! De fato, depois que eu aumentei para R$ 2,00 fixos e R$ 6,00 por hora, o cara teve só uma aula e nunca mais me ligou. Àquela altura, eu já tinha outros clientes.
Por que eu precisava ganhar dinheiro e o que eu fazia com o dinheiro que ganhava? No início do período, a minha preocupação era com o básico mesmo. Eu precisava de dinheiro para comprar comida, principalmente lanches na universidade e alimentos práticos para comer em casa, como flocos de cereais, leite, pão, etc. Esses itens costumavam faltar, porque meu pai demorava vir ao Recife e quando vinha trazia menos coisas do que antes.
As obras no mercado já haviam sido concluídas (Fig. 2), meus pais já estavam trabalhando, mas a receita familiar ainda era bem modesta. Na verdade, levando em consideração o patrimônio da família, tudo estava mais do que sob controle. E meus pais já tinham dito que qualquer coisa, eu podia ligar que eles depositavam dinheiro na minha conta. Mas certas atitudes de Odair, naquela época, davam a entender que era o fim do mundo. Ele estava na boa, ganhando bolsa de mestrado, gastava tempo e dinheiro com besteiras, mas no apartamento, parecia um líder de uma abrigo de esfomeados. Uma vez, eu acordei de manhã, fui preparar o leite; usei o restinho (só uns 10g) de uma bolsa de leite em pó e só depois vi que aquela era a última bolsa. Eu quis ir comprar mais, mas Odair argumentou que eu deveria tomar aquela água "suja" de leite. Na visão dele, eu era um bichinho luxento que não tinha a menor noção de como meus pais trabalhavam duro para me sustentar. O que eu deveria fazer, largar tudo e ir trabalhar vendendo picolé na praia?
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| Figura 2: O antigo Supermercado Estrela, agora repartido em Supermercado do Povo (pintado de azul) e uma merceariazinha amarela. |
§4. O início de uma nova crise acadêmica
Em 08/09/2011, fiz a primeira prova de Cálculo 4. Eu tinha estudado muito pouco, sem fazer exercícios (e aquele assunto você só aprende praticando), fiz a prova morto de sono (após uma noite sem, ou quase sem, dormir), resolvi alguns itens da primeira questão e saí enrolando nas outras. Tirei 2,6 nessa prova. Pior foi a primeira prova de Topologia, que eu faltei, por não estar sabendo de nada.
Nunca na história da minha graduação em matemática, eu havia começado tão mal um período. Risco de reprovação em duas cadeiras logo na primeira unidade! Cálculo Numérico e Análise só tinham duas unidades, então as primeiras provas dessas cadeiras só aconteceram lá para outubro. Se tivessem acontecido antes, o número de cadeiras ameaçadas logo na primeira unidade poderia ter sido ainda maior, porque eu também não estava estudando suficientemente esses assuntos. Eu só estava indo bem mesmo em Álgebra Linear 2: fiquei com 9,0 (média ponderada das notas da prova, dos testes e das listas) na primeira unidade. Uma das causas da falta de tempo para estudar todos os assuntos que eu precisava aprender, na primeira unidade, foram as listas de Álgebra Linear 2, que eu fazia com todo zelo, digitando no Word.
Nota matemática #8 - Algumas Questões Resolvidas de Álgebra Linear
Até hoje, muitos tentam entender, mas nem eu entendo direito, o que aconteceu comigo no início do segundo semestre de 2009. Tenho apenas algumas suspeitas de causas. Além do tempo gasto resolvendo as listas de Álgebra Linear 2, acho que contribuíram para o início da crise de 2009.2:
- A vadiagem. Tenho que admitir, eu não estava muito concentrado nos estudos quando começou o período (Fig. 3).
- Atividades de ensino. Durante o mês de agosto, se dei aula, foi uma ou duas. Mas mesmo assim, havia todo um contexto de preocupação com o marketing e a propaganda: atualizar o blog Sophismata, responder e-mails negociando aulas, publicar anúncios nos murais da UFPE e na internet, etc. Em setembro, quando comecei a dar aulas regularmente, foi que este fator veio a ser mais marcante.
- Quantidade e conteúdo das disciplinas. Era difícil se concentrar em tantos assuntos para estudar. Nos períodos anteriores, eu também tinha me matriculado em muitas cadeiras, mas algumas não demandavam muita preocupação, por serem fáceis ou por eu já ter estudado partes de seus conteúdos antes. Em 2009.2, tudo era novo; exceto talvez Álgebra Linear 2, que era apenas uma versão mais aprofundada e rigorosa de Álgebra Linear 1.
| Figura 3: Um dia de vadiagem (início de setembro). |
§5. Computador com problemas
Em 14/09/2009, quando liguei o computador, ele se apagou antes de o Windows ser inicializado e não quis ligar mais. Contei o problema a Odair, ele disse que podia ter sido a fonte. Após coletarmos evidências corroborando essa hipótese, fui ao Centro e comprei outra fonte (a verba veio de Cupira). Depois de 4 dias de uso, essa segunda fonte (que estava na garantia) queimou. Fui na loja e troquei por outra. Uma semana depois, o que queimou foi o pente de memória. E a dor de cabeça continuou: troca componente, testa... queimou! Vamos trocar! Para lá e para cá, tentando consertar o PC. Odair, claro, se recusava a chamar um técnico. Fiquei sem computador.
Imagine o estresse: você acostumado a usar o computador para tudo, digitando listas de exercícios, estudando por e-books (para Álgebra Linear 2)... de repente, ele resolve pifar. Meu pai disse que não daria um centavo para comprar outro. (Ele costuma ver computadores quase como drogas: produtos desnecessários que levam os jovens ao vício.) Odair dizia: "Quer outro computador? Vá trabalhar."
§6. Curso Impacto
Em 21/09/2009, recebi um e-mail de uma mulher perguntando se eu teria interesse em ensinar num cursinho preparatório para o ENEM. Respondi dizendo que sim. Dezoito dias depois, a mulher retornou recomendando que eu ligasse para determinado número e acertasse os detalhes com Margareth. Liguei, marquei uma entrevista e, no dia combinado, fui procurar o tal curso no Shopping Parnamirim. Chegando ao local, a porta estava fechada; chamei, chamei e nada. Liguei para Margareth, ela disse que tinha esquecido, pediu desculpas e remarcou a entrevista para outro dia. Na segunda tentativa, ela estava lá. Fez algumas perguntas, explicou como funcionava o curso, eu concordei e fechamos acordo.
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| Figura 4: Eu, em fins de setembro ou início de outubro. |
Em meados de outubro, comecei a dar aulas nesse cursinho, uma ou duas vezes por semana. Não era bem um curso preparatório para o ENEM; os alunos eram em sua maioria do ensino fundamental e o que eu fazia lá era tentar tirar as dúvidas que eles tinham sobre os assuntos que estavam vendo na escola. Algumas aulas eram tranquilas. Mas outras eram um verdadeiro exercício de paciência: os alunos tinham dificuldades profundas em matemática, perdiam a concentração muito facilmente e muitas vezes os interesses da turma eram divergentes então eu tinha que ensinar dois assuntos ao mesmo tempo. Além dessas aulas, dadas lá no curso, eu era enviado, uma vez por semana, para dar aula particular a um garoto, na Av. Boa Viagem.
Com esse emprego, eu esperava ganhar cerca de R$ 450,00 reais por mês; assim, em pouco tempo, eu poderia comprar um computador. Mas em novembro, quando recebi meu primeiro pagamento, fiquei confuso. Pelo que eu tinha entendido, o modelo de salário combinado era de R$ 5,00 por aluno e por hora de aula; então se eu desse aula simultaneamente a 5 alunos, eu ganharia R$ 25,00 por hora. Mas sendo assim, eu havia recebido bem menos do que merecia. Pedi explicações a Margareth. Ela disse que o acordo tinha sido R$ 5,00 por aluno e por aula, sendo cada aula de 2h; logo, por uma hora de aula com 5 alunos, eu ganharia apenas R$ 12,50.
O pior é que muitas vezes a turma consistia em apenas dois alunos, então eu estava ganhando R$ 5,00 por cada hora de aula; menos do que eu ganharia como autônomo, numa aula particular. Se considerar o tempo que eu perdia nos ônibus, nas paradas, etc. e os R$ 2,00 que eu gastava com as passagens cada vez que ia dar aula nesse cursinho, eu estava trabalhando de graça. Após perceber isso, eu passei a reinvidicar presença de pelo menos três alunos na sala, para que eu ganhasse no mínimo R$ 7,50 por hora de aula.
Quando eu ensinava ao garoto de Boa Viagem, através do curso, eu ganhava um pouco mais: R$ 40,00 por 2h de aula. Mas eu gastava cerca de 3,5h com a viagem de ônibus, na volta descia atrás da UFPE, mais de 11h da noite, os portões da universidade já fechados, eu tinha que passar por uma brecha que fizeram na grade, atravessar todo o campus até chegar em casa. Muita mão de obra e altos riscos de assalto!
§7. A crise se agrava
Cada vez que eu ia dar aula no curso ou em Boa Viagem eu perdia cerca de 6h, tempo que eu deveria estar utilizando para estudar, caso eu estivesse determinado a passar em pelo menos 3 das 5 cadeiras que eu estava pagando. Mas àquela altura, eu já tinha perdido a motivação de me preocupar com os compromissos da universidade. O período já estava corrompido mesmo... parecia mais vantajoso trabalhar, descansar e garantir estabilidade para os próximos semestres. Além de dinheiro para o básico, eu precisava de um computador, de um celular decente (o meu, que meu pai tinha comprado para substituir o que havia sido levado pelos assaltantes, tinha teclas defeituosas e ficava se desligando sozinho) e de cuidar da minha saúde (não estava afim de continuar sedentário, virando noites sem dormir, me alimentando mal, etc.). Então eu decidi não recusar oportunidade alguma de ensino, desde que estivesse de acordo com minhas condições de preço e que não coincidisse com outras já confirmadas. Aí, se desse tempo, eu estudaria nas horas vagas. Esse foi o plano que eu segui conforme fui vendo que não tinha outras opções, mas eu não estava muito feliz com isso.
Além do tempo que eu gastava dando aulas, me locomovendo para dar aulas, pesquisando rotas e meios de transporte para chegar aos endereços dos alunos que marcavam aulas particulares em domicílio, respondendo e-mails de clientes, etc., essas atividades me atrapalhavam porque
- me faziam perder o foco: É muito fácil se acostumar a não estudar, depois de passar dois ou três dias fazendo outras coisas.
- me impediam de ter uma rotina de estudo: Na correria do dia-a-dia, não há como parar para estimar a probabilidade de não conseguir-se alcançar determinado objetivo caso não comece-se a estudar naquele momento. É aconselhável ter um horário fixo, todo dia, para sentar, se concentrar, e estudar. E com a minha rotina de professor particular, isso era impossível, pois as aulas apareciam em qualquer horário.
- me cansavam: Depois de uma tarde dando aulas, eu mal entrava em casa, ia descansar acessando a internet na lan house (naquele tempo, tinha promoção imperdível: 3h por R$ 2,00). Lá eu lia e respondia e-mails, entrava no orkut, conversava por msn, pesquisava celulares para comprar, etc. Em 07/11/2009, eu comprei um celular no compredachina.com, por R$ 287,38.
A primeira prova de Cálculo Numérico, assim como provavelmente a primeira de Análise, foi realizada por volta da segunda semana de outubro. Faltei a de Numérico e estava decidido a faltar a de Análise, mas Bob me convenceu a ir. Nesta, tirei 3,5; ainda fiquei surpreso por ter conseguido fazer alguma coisa na prova. Em 13/10/2009, faltei a segunda prova de Cálculo 4; nesse mesmo dia, numa conversa de msn, eu manifestei interesse em concursos públicos (para ganhar dinheiro) e disse que havia acertado uns detalhes da matrícula na academia da UFPE (queria voltar a malhar). Aí, eu já tinha praticamente desistido de tudo, exceto Álgebra Linear 2.
De vez em quando, nas horas vagas, eu pegava um livro de matemática, dava uma lida, pensava um pouco sobre alguns teoremas, só para não perder o costume. Tentei continuar o estudo de Análise, num ritmo muito mais lento do que o que seria exigido de mim caso eu não tivesse desistido da cadeira. Nas preliminares de Limits: A New Approach to Real Analysis, eu encontrei uma prova de que N² e N têm a mesma cardinalidade, onde N denota o conjunto dos números naturais (incluindo o zero). Não fiquei muito satisfeito com aquela demonstração, achei que deveria existir uma mais simples e mais direta. Então tentei provar aquele teorema por conta própria. Eu já conhecia o argumento da primeira diagonal de Cantor, mas eu queria algo mais rigoroso, como uma fórmula que definisse explicitamente uma bijeção Φ entre N² e N. Ao perceber que o problema de encontrar tal bijeção é equivalente ao de pintar uma fila infinita (contável) de pontos com infinitas cores, cada uma sendo usada infinitas vezes, eu fiz um diagrama (como o da Fig. 5), notei certos padrões e cheguei à formula da Fig. 6. Em 29/10/2009, eu tentei provar, usando indução finita, que Φ (definida como na Fig. 6) é de fato uma bijeção entre N² e N. Mas não consegui. Em 2010.2, eu retomaria o problema.
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| Figura 5 |
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| Figura 6 |
Em 31/10/2009, mandei um e-mail para o professor de Álgebra Linear 2 explicando o motivo das minhas faltas às aulas e dizendo que achava que não tinha condições de fazer a segunda prova, marcada para o dia 6 de novembro. Perguntei se eu poderia continuar faltando, tentando estudar sozinho, e se ele poderia me avaliar ao final do semestre. Ele não respondeu.
§8. Muito trabalho
Conforme se aproximava o fim do ano, mais fregueses foram aparecendo, ligavam para mim pedindo aulas particulares ou resoluções de questões. Isso me permitiu ir aumentando aos poucos o preço das minhas aulas. Em novembro e principalmente em dezembro, meu celular tocava quase todo dia, com clientes ligando. Aumentei o preço para R$ 15,00 a hora-aula, mais custos de transporte (em torno de R$ 10,00, para viagens de 1h30min, incluindo ida e volta), mas mesmo assim não deu para quem quis.
Quando alguém ligava para mim querendo aulas em domicílio, eu perguntava o endereço, pesquisava no Google Maps, às vezes reproduzia num papel parte do mapa daquela região, consultava o site do Grande Recife Consórcio de Transporte para saber os ônibus que passavam pelo local e ia, fazendo perguntas ao cobrador e ao público em geral, sempre que necessário. Dei aulas em Boa Viagem (vários locais), Espinheiro, Parnamirim (além do curso), Barro, etc. E assim eu fui aprendendo a andar por Recife.
Enquanto isso, nada de eu encontrar tempo para estudar álgebra linear. Também comecei a faltar à academia, por falta de tempo e choque de horários com as aulas que eu vinha dando. A academia, eu consegui, de certa forma, retomar; o curso de Álgebra Linear 2, não. Eu havia faltado uma prova, o professor não tinha respondido meu e-mail, mesmo que eu conseguisse encontrar tempo para estudar o assunto, não teria coragem de chegar lá e pedir para fazer uma segunda chamada, ou qualquer coisa semelhante que me fizesse passar. Além disso, deixar de trabalhar para estudar, àquela altura, parecia ser algo bastante arriscado: eu não iria aprender bem, poderia não conseguir passar e mesmo se passasse, provavelmente não obteria uma boa nota. Então eu desisti da última cadeira que restava naquele semestre. Mas, como diz um velho ditado, o que é um peido pra quem tá cagado?
§9. As repercussões
Não é muito comum, numa universidade, alguém desistir de todas as cadeiras de um período, principalmente após um ano de aparente estabilidade acadêmica e uma boa quantidade de notas boas. Um dos propósitos deste capítulo é explicar o que me levou a adotar essa medida, e é por isso que ele é tão longo. Alguns motivos, no entanto, seriam talvez melhor explicados por um psicólogo. Por exemplo, algumas pessoas se motivam mais para estudar quando estão em situação de desespero. Eu sou ao contrário, e tenho minhas razões para ser assim: se eu não tenho conseguido estudar o suficiente e a situação começa a ficar muito complicada, é porque existem problemas externos à minha condição de estudante que precisam ser resolvidos.
Agora, imagine a dificuldade de explicar todo esse quadro a todo mundo que chegava perguntando "E aí, João, cadê você? Desistiu de tudo mesmo, foi?". Alguns perguntavam se eu queria mudar de curso. No início de dezembro, uma mãe de uma aluna minha me perguntou:
– Tu já estás de férias, Júnior?
– Já. – Respondi, para encurtar a história.
– Tá vendo, gente inteligente é assim mesmo. – Ela comentou, achando que eu já tinha passado em todas.
Muitos, pelo jeito, achavam que eu estava só gozando a vida: "Joããão, Joããão... É como minha vó diz, esses quietinhos são os mais danados!", disse um deles. Eu estava namorando, desde agosto, uma garota do DMat, muitas vezes aparecia na universidade com ela, mesmo depois de ter abandonado todas as disciplinas, aí a fofoca rolava solta. Os professores, com certeza, também comentaram muito a meu respeito. Minha imagem perante o corpo docente do Departamento de Matemática ficou um tanto prejudicada.
Mas o que mais me preocupava, ao fim do período, era a possibilidade de já ter entrado em vigor, na UFPE, novas condições de suficiência para o jubilamento (i.e., recusa de matrícula, resultando na perda de vínculo), entre as quais estavam "reprovação, por falta ou por nota, em todos os componentes curriculares de um semestre letivo". Eu tinha ouvido falar que essa lei já tinha sido aprovada, e isso me deixava com muito medo. Quando liguei para a PROACAD perguntando sobre o assunto, me disseram que as novas regras para o jubilamento só estariam em vigor a partir de 2010.1. Escapei fedendo.
Até que ponto eu havia chegado! De blocado em 2009.1 a preocupado com (e talvez até merecedor de) jubilamento em 2009.2. Quando eu comecei a considerar a possibilidade de abandonar todas as disciplinas do período, eu achava que o processo, se viesse a acontecer, seria um pouco mais tranquilo, porque eu não contava com a opinião das pessoas, na universidade, em casa... Odair clamava: "É mentira, né? Não vai passar por quê? Falta computador? Tire xerox, imprima livros, corra atrás do professor, mate o professor, você tem que passar!". Além disso, eu via meus colegas, na universidade, estudando, aprendendo, passando... (alguns passavam sem estudar, ou estudavam sem aprender, mas passavam). Eu via meus alunos, também, estudando, ou pelo menos se preocupando em passar.
Isso dava à minha vida um clima de fim de carreira, parecia que a partir dali eu teria que viver me preocupando apenas em ganhar dinheiro, comprar aparelhos eletrônicos, comer pizza no shopping, dar uma passadinha na universidade só para conversar besteiras com os ex-colegas e levar a namorada no ponto de ônibus... nada de teoremas, matemática zero, total ócio intelectual. [Nossa, isso é um pesadelo!] Mas eu ainda tinha plena noção do que eu queria para a minha vida, em nenhum momento pensei em desistir do curso, muito menos da matemática. Então, em 2010.1, eu deveria usar toda a experiência ganhada em 2009.2, junto com os recursos da minha já estabelecida fonte de renda, para garantir a estabilidade e botar o curso para frente.
Fiquei em Recife dando aulas (no cursinho e como autônomo) até 24/12/2009, quando fui para Cupira.
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