sábado, 28 de janeiro de 2012

[Retrospectiva da Graduação] Capítulo 8: 2009.1 (16/02/2009 – 03/08/2009)



Músicas:
1. Oceans - Pearl Jam
2. Platform 23 - The Free Association (Trilha sonora de Código 46)
3. Tales of Brave Ulysses - Cream
4. I'll Make Love To You Anytime - Eric Clapton
5. The Jody Grind - Horace Silver
6. Oh! Oh! Here He Comes! - Herbie Hancock


§1. Volta às aulas no segundo período em matemática

Em 16/02/2009, fui cedinho a Caruaru para fazer a prova teórica do DETRAN. Apesar de ter estudado pouco, consegui ser aprovado. De lá, peguei uma moto-taxi para a rodoviária e então fui de ônibus ao Recife.

Figura 1: Painel, no DETRAN, mostrando as fichas sendo chamadas para realização da prova teórica, em 16/02/2009 às 8h40min. 

O meu plano para os primeiros dias do período era: organizar tudo até o dia 20 (assistir aulas, buscar informações sobre disciplinas, fazer modificações de matrícula, pegar livros na biblioteca, organizar as coisas no apartamento, etc.) e estudar pesado a partir do sábado de carnaval (21 de fevereiro). Decidi me matricular em
  • Cálculo Diferencial e Integral 3;
  • Física Geral 3;
  • Álgebra 1;
  • Física Experimental 1;
  • Tópicos de Geometria Elementar (do curso de licenciatura em matemática);
  • Estatística e Probabilidades (do curso de licenciatura em matematica).
Essas duas últimas cadeiras me serviriam como eletivas livres (classe de disciplinas que eu poderia usar para completar no máximo 180h da minha carga horária). Peguei vários livros, incluindo dois de álgebra, para estudar durante o carnaval (anunciei até que faria um "Galois na Madrugada"), mas tinha tanta coisa para organizar no apartamento, que não pude fazer mais nada.

Odair, agora ganhando bolsa de mestrado, tinha comprado um notebook e determinou que o PC, que antes compartilhávamos na sala, fosse para o meu quarto. Tive que fazer um reposicionamento geral dos móveis, aí aproveitei para dedetiza-los contra cupins (pois eles já estavam sendo corroídos) e limpa-los. Também organizei arquivos salvos no computador, enviando parte deles para o meu e-mail como prevenção contra uma eventual pane no HD (foi através disso que consegui preservar muitas das fotografias e textos que estou utilizando nesta retrospectiva).

Eu pretendia continuar malhando durante o semestre letivo, nos primeiros dias até levantei uns pesinhos em casa, mas terminei perdendo a rotina. Em Recife, era mais difícil encontrar tempo para fazer exercícios físicos e cuidar da alimentação (até pelo fato de ser eu quem preparava minha própria comida). E também não seria uma boa ideia gastar dinheiro com academia.


§2. Restrições orçamentárias

A regra para os próximos meses, ou anos, era: economizar dinheiro ao máximo. Quando voltei de Cupira para Recife, no fim das férias, meu pai já tinha dividido com uma parede o mercado dele (em funcionamento há 30 anos) e estava prestes a fecha-lo temporariamente para reforma e em seguida alugar sua maior parte. Ele vinha pensando em fazer isso há muito tempo, e assim que apareceu alguém querendo negociar, ele topou. Foi uma decisão um tanto precipitada, ninguém da família (fora ele) aprovou. O objetivo era sair do estresse da vida de comerciante, ficar só com uma parte do prédio e montar nela uma pequena mercearia. Mas a reforma levaria meses, e a burocracia para registrar os dois novos estabelecimentos demoraria ainda mais. Durante esse tempo, meus pais não trabalhariam, exceto administrando a transição (ele) e cuidando da casa (ela); ou seja, receita zero. Além disso, meu pai agora iria viajar bem menos ao Recife e, portanto, não poderia passar tão frequentemente no nosso apartamento para deixar comida e produtos de limpeza, como costumava fazer.

Figura 2: Interior do Supermercado Estrela (nome fantasia do mercado do meu pai), em 12/02/2009.
Figura 3: Frente do Supermercado Estrela, em 12/02/2009. Note, ao fundo, a parede recém-construída, ainda a ser pintada.
Figura 4: Minha mãe trabalhando no caixa, em 12/02/2009.

Minha mãe, que sempre me dava um dinheirinho para cobrir os meus gastos em Recife, agora não tinha mais acesso ao caixa. O dinheiro poderia vir diretamente do meu pai, mas nesse caso a burocracia seria maior. Se eu estivesse realmente precisando de algo, eles me dariam, porém: 1) é meio chato ficar pedindo; 2) a propriedade "estar realmente precisando de" não é muito bem definida. Se tem fubá, sardinha, soja e sopão no armário, tem comida. Mas a experiência na universidade mostra que você não deveria ter que se preocupar em preparar comida, lavar pratos e panelas, ficar indo em casa direto só para comer, etc. Além disso, comer sopa com soja, ou cuscuz com sardinha, direto, não é algo muito prazeroso. (Meu cardápio era um pouco mais variado do que isso.)


§3. Cadeiras da licenciatura e Física Experimental 1

Nas noites de terça e quinta, eu tinha aulas de Tópicos de Geometria Elementar (TGE) e Estatísica e Probabilidades. Eu achei o curso de TGE bem interessante, dava uma boa noção de como funciona o método axiomático em matemática. Estudamos sistemas axiomáticos diversos, dos mais simples aos mais complexos, e (brevemente) a consistência ou não de uns com outros. A disciplina teve várias provas (no sentido de testes, exames): as primeiras foram normais a levemente difíceis, as outras foram cada vez mais fáceis. Estatística foi mais leve e bem menos interessante, eu ia a poucas aulas e sempre procurava gastar o tempo resolvendo questões, sem prestar atenção nas aulas. Mas até que eu gostei de estudar o assunto, por livros. Comecei a ler o Introduction to Probability Theory and Statistical Inference. Pena que depois, por falta de tempo, tive que recorrer a materiais mais resumidos.

A grande vantagem em estar pagando essas cadeiras era que eram fáceis e apesar de cada uma delas ter, burocraticamente, 60h de carga horária (o que equivale a 4h de aula por semana), na prática, só tínhamos 3h de aula de cada disciplina por semana (isso sem descontar as faltas dos professores).

Outra cadeira tranquila era Física Experimental 1. O professor era novato nessa disciplina, não se preocupava com detalhes, encerrava a aula mais cedo, etc. Tudo o que tínhamos que fazer era ir às aulas, executar os experimentos (que eram até interessantes, ao contrário do que pessoas que já tinham pago a disciplina comentavam), preencher e entregar os relatórios. Minhas notas ficavam entre as maiores da turma.


§4. Álgebra 1 (de novo)

O professor de Álgebra 1 não era mais o mesmo de 2008.1, era outro mais exigente. O primeiro mês do curso foi todo dedicado aos fundamentos da matemática (noções de lógica e teoria axiomática dos conjuntos) e a bibliografia recomendada pelo professor, só para essas preliminares, consistia em uns dez livros. É claro que eu não iria correr atrás desses dez livros, então tive que escolher um de minha preferência. Como em 2008.2 eu tinha começado a ler o livro Introduction to Set Theory, de Hrbacek e Jech, voltei a usa-lo.

Um exemplo típico de situações imprevisíveis que costumam me atrapalhar: Passei a madrugada entre os dias 28 e 29 de março tentando dormir, mas amanheceu o dia e, não sei por que, eu ainda estava acordado. Já que eu não estava tendo sono de jeito nenhum, peguei o Hrbacek/Jech e fui para o laguinho, tentar estudar lá, conforme havia programado no dia anterior. Quando cheguei, sentei, abri o livro, comecei a ler e em menos de 10min, deu sono; muito sono. Voltei para casa depressa. Mal deu tempo de tomar banho e cair na cama: dormi instantaneamente.

Quando começamos a ver o assunto de álgebra mesmo, a abordagem adotada pelo professor foi predominantemente a do Adilson, o livro que eu não gostava de usar. Nas férias, eu tinha estudado álgebra mas tinham sido assuntos totalmente diferentes, pelo Gallian (Contemporary Abstract Algebra).

Nota matemática #7 - Coeficientes Binomiais e Divisibilidade

Figura 5: Tabela que fiz provavelmente em abril de 2009 mostrando coeficientes binomiais com destaques vermelhos para indicar aqueles da forma p!/i!(p-i)! ou q!/i!(q-i)!, onde p e q denotam, respectivamente,  um número primo arbitrário e uma potência de um primo arbitrária (no primeiro caso, o destaque é mais escuro). O objetivo era estudar a fatoração primária dos coeficientes binomiais destacados.

As questões que caiam nas provas de Álgebra 1 eram fáceis se você já as tivesse feito como exercício; mas se fosse tentar ter a ideia na hora da prova, faltaria tempo para fazer as outras questões. Para mim, as provas sempre pareciam muito compridas. Eu não tinha tempo para fazer todos os exercícios sugeridos pelo professor antes da prova, e eu prefiro me preocupar com o assunto em si do que com o problema "Que questão deve cair na prova?". Além disso, quando faço demonstrações, costumo me preocupar com o formalismo, a clareza, estética, organização e simplicidade. Isso geralmente me prejudica em termos de nota. A primeira questão da primeira prova de Álgebra 1 (realizada em 07/04/2009) pedia para provar a associatividade da soma nos números naturais. Eu botei logo três quantificadores universais, um para cada variável, e tentei fazer uma indução tripla. Naturalmente, eu me enrolei, perdi tempo e acabei deixando várias outras questões em branco.


§5. Monitoria e iniciação científica

No segundo período, já era hora de tentar arrumar uma bolsa de monitoria ou de IC. Eu tinha deixado meu histórico na secretaria para me candidatar a monitor (de cadeiras da Área 2), mas a única nota acima de 9,0 que eu tinha tirado em cadeiras da Área 2 (Geometria Analítica) estava registrada no histórico de ciência da computação, que eu não podia usar para a seleção de monitoria porque eu tinha reprovações nele. Então optei por Cálculo 2 ou Álgebra Linear 1, mas os meus concorrentes tinham notas melhores do que as minhas nessas cadeiras e eu terminei não sendo chamado.

Se as notas das cadeiras nas quais eu havia sido dispensado (entre as quais estão o 9,83 em Geometria Analítica) não podiam me ajudar, provavelmente elas também não podiam me atrapalhar. Então eu não precisava ter me preocupado em não pedir dispensa para disciplinas nas quais eu não tinha ido muito bem. O importante mesmo era passar com 10 (ou quase isso) em alguma cadeira, estando já no curso de matemática. Gabriel, que tinha vindo da física mas preferiu não pedir dispensa e pagar tudo de novo, conseguiu bolsa de monitoria. Edgar e Ricardo, que nunca tinham estado num curso universitário antes, também conseguiram.

Em 04/04/2011, mandei um e-mail para o professor de Álgebra 1 dizendo:
Professor, preciso de um orientador pra iniciação científica até o dia 15/04. O que é que eu faço?

Grato,
João Alves Silva Júnior

Ele simplesmente não respondeu, nem falou comigo sobre isso depois. Apenas ficou soltando indiretas, do tipo: "Na prova, deixa a questão em branco. Aí depois, diz: Aah, isso agora eu não sei, mas vou saber na IC. Né verdade? Éééé. Então, senhoras e senhores, voltando ao tema...". Eu só queria uma dica! Tipo: "Fale com tal pessoa, levando o histórico, que eu ouvi dizer que ela estava procurando alunos para orientar", ou então "Lamento, não sei", ou pelo menos "Te vira, cara".


§6. Risco de ir para a final

Minhas duas primeiras notas de Física 3 foram boas, principalmente por eu já ter estudado aqueles assuntos no primeiro semestre de 2008. Mas o assunto da terceira unidade estava muito difícil, e a escassez de tempo, devido às outras cadeiras, piorava ainda mais a situação. Em Cálculo 3, eu também comecei bem, mas me dei mal na segunda prova e fiquei precisando tirar 8,5 na terceira unidade para passar por média. Para completar o quadro, em Álgebra 1, eu já estava com medo de ser reprovado: tirei 5,7 na primeira prova, 4,0 na segunda, e não fazia ideia de como iria entender o assunto da terceira unidade.

Alguma coisa estava indo muito errado, mas eu não sabia exatamente o que era. Às vezes eu achava que a presença do computador no meu quarto, na mesma mesa que eu usava para estudar, não estava colaborando com a minha concentração. De fato, eu gastava horas na internet: orkut, msn, youtube, etc. Chegou um momento em que eu tentei não ligar mais o computador, para nada. Mas logo vi que essa restrição me atrapalharia mais do que o uso exagerado da internet: até o orkut e o msn eram extremamente úteis desde que devidamente utilizados.

Além de tempo, faltavam-me dinheiro e um pouco de motivação, também. Minha vida estava um bocado sem graça: só problemas, preocupações e correria. Eu precisava de estabilidade, paz para estudar tranquilo. Alguma mudança profunda precisava acontecer, não só na maneira como eu estava encarando meus compromissos acadêmicos, mas também nos recursos que eu dispunha para cumpri-los.


§7. Aulas particulares

Uma dia, em 2008.2, Bob comentou comigo que estava negociando umas aulas particulares. Meses depois, um cara da licenciatura, que pagava TGE e Estatística comigo, me contou que ele já ensinava, e me perguntou se eu também dava aulas. Aí eu ficava pensando: "Eu podia dar aulas particulares, mas como é que eu faço pra arrumar alunos?". Pelo que eu lembro, antes de 2009, eu já tinha pesquisado no Google uma vez, mas não encontrei nenhuma oportunidade. Numa das primeiras noites juninas de 2009, andando sozinho pelas ruas do Engenho do Meio, eu pensei: "Não é possível, há milhares de pessoas precisando de ajuda em matemática nessa cidade! É melhor eu pesquisar novamente". Dessa vez, encontrei um anúncio (publicado um dia antes no site OLX) de uma moça que precisava urgentemente de aulas sobre funções. Imediatamente respondi dizendo que eu poderia ensina-la.

Em 04/06/2009, ela entrou em contato comigo por e-mail pedindo que eu ligasse para ela, mas eu estava sem crédito. Quando consegui ligar, ela perguntou quanto eu cobraria pelas aulas. Aí eu precisei de tempo para pensar; fiquei de dar a resposta depois. Eu queria cobrar um preço justo, e eu gostava de ensinar (mesmo de graça), então achei que passar algumas horas ganhando pouco dinheiro para falar de matemática seria muito mais útil do que passar o mesmo tempo no orkut e msn (atividade que eu praticava bastante). Cheguei a pensar em cobrar R$ 3,50 pela hora-aula, fora gastos de transporte (tempo de viagem + valor da passagem de ônibus até o local). Pesquisei no Google sobre quanto cobrar, vi algumas sugestões de preço, mas achei que eram muito caras. Terminei cobrando R$ 5,00 por cada hora de aula, mais R$ 7,00 pela viagem de ida e volta entre minha casa e a Faculdade São Miguel (onde seriam dadas as aulas), no bairro da Boa Vista, que é próximo ao centro do Recife. Ela aceitou, ficou muito agradecida e quis combinar logo um pacote de 4 aulas, em dias diferentes (isso confirmava que eu tinha cobrado muito barato).

Dei a primeira aula em 06/06/2009: das 8h30min às 13h30min ensinando funções. Eu estava tão entusiasmado com essa minha primeira oportunidade profissional que nem senti o tempo passando. No final, recebi meus R$ 32,00, peguei o ônibus na parada e fui para casa feliz, ouvindo jazz. "Nada como passear pelo Recife de ônibus, num sábado, para conversar sobre matemática e ainda ganhar dinheiro!", eu pensava. Antes de começar a dar aulas, eu quase nunca saía de casa, a não ser para ir à universidade, fazer compras ou viajar para Cupira. O dinheiro que eu ganhei naquela manhã era o que minha mãe me dava de vez em quando, para passar duas ou três semanas (considerando que muitas coisas não precisávamos comprar, pois vinham de Cupira, essa quantia dava para o essencial; e se precisasse de mais, minha mãe me fornecia). Um horizonte de possibilidades se abria em minha frente. Fiquei estimando quanto eu poderia ganhar por mês dando aulas daquele jeito, se eu fosse arrumando mais clientes.

A segunda aula foi marcada para o dia 11/06/2009, às 19h, e depois adiada para o dia seguinte, no mesmo horário. Em 12/06/2009, umas 17h40min, eu fui esperar o ônibus Cidade Universitária na parada próxima à reitoria da UFPE (Fig. 6). Antes de anoitecer, eu vi dois rapazes se aproximando e olhando para mim. Quando estavam a cerca de dois metros de distância, um deles disse: "É um assalto. Celular e dinheiro" (sem mostrar arma). Até aí, eu não tive medo, fiquei pensando no que fazer. Perguntei: "E se eu não der?". Responderam, pondo a mão na cintura fingindo que estavam armados: "Boooora, boy, reaja não! Quer levar um tiro, é?". E já foram botando a mão no meu bolso e retirando o celular. Eu ainda estava lembrado da ordem "celular E DINHEIRO", então peguei a carteira e tirei R$ 7,00. Um deles disse: "Mais". Eu: "Tenho não" (na verdade eu tinha, mas estava escondido e eu nem lembrei que tinha). Nessa hora, eles saíram de perto de mim para assaltar um casal que ia chegando. Mas eu não tinha me dado por vencido, achava que as coisas não poderiam ficar daquele jeito.

Figura 6: A parada de ônibus de que o texto fala fica no local marcado com um X vermelho, na foto acima (tirada em dezembro de 2011). 

Fui atrás deles para buscar meu celular. Então percebi um terceiro elemento, sentado numa bicicleta estacionada no meio-fio: "Ei, boy, vai pra onde? Volta". Esse podia estar armado, e eu nem tinha notado ele antes. Minhas pernas já estavam meio bambas, de nervosismo. Passou uma viatura da PRF bem perto do local, eu pensei em acenar, mas o carro estava em velocidade um pouco alta e eu achei que só os assaltantes iriam notar meu pedido de ajuda. Fiquei torcendo para que os policiais percebessem algo de estranho ali, mas eles passaram direto. Game over, fiquei sem meu celular. Pela primeira vez na vida, eu havia sido assaltado. Voltei para casa, liguei para a aluna avisando que eu iria chegar mais tarde, peguei mais dinheiro (para repor os R$ 7,00 que dei aos bandidos) e fui dar aula.

Ainda no mês de junho, dei outras duas aulas a essa mesma aluna e respondi umas questões para outra mulher, que tinha entrado em contato comigo através de um anúncio que eu tinha publicado no OLX.


§8. Provas finais, pela primeira vez em matemática

Minha situação ao final do período (pelo menos em três das seis cadeiras que eu estava pagando) era periquitante. Na terceira unidade, fiz a prova de Cálculo 3 sem saber de quase nada: precisando tirar 8,5 para passar por média, tirei 3,5. As terceiras provas de Física 3 e Álgebra 1, eu faltei. Pedi segunda chamada para física, inventando uma história sobre imprevistos de viagem. Por sorte, concederam a segunda chamada a todos que haviam solicitado. Pedir segunda chamada para disciplinas do ciclo profissional em geral é mais difícil, precisa passar por algumas burocracias. Por isso, eu já estava conformado em reprovar Álgebra 1.

Na manhã de 17/06/2009, fiz a segunda chamada de Física 3. Como eu ainda não sabia nada do assunto da terceira unidade, só pude tentar fazer duas das três questões da prova: uma valia 3,5 e a outra valia 3,0. Eu só precisava tirar 3,8 para passar por média, mas as questões eram meio difíceis, eu errei algumas contas e fiquei dependendo da boa vontade do professor. Naquele mesmo dia, depois da prova, fui com os meninos para uma confraternização na casa de Thiago. Durante a volta, num ônibus, comentei com Edgar sobre a conjectura dos diagramas de Venn formados por curvas fechadas simples de interior convexo (ver nota matemática #5, no Cap. 7, §2) e disse que havia encontrado um contra-exemplo, com retângulos (Fig. 7).

Figura 7: Um diagrama de Venn formado por quatro retângulos, provando que existem diagramas de Venn formados por quatro ou mais curvas fechadas simples de interior convexo.

A segunda chamada de Álgebra 1 foi marcada para 23/06/2009. Nesse dia, apesar de eu nem ter solicitado fazer a prova, decidi arriscar e comparecer à sala de aula na hora em que seria realizada. Cheguei lá, não vi ninguém, então fui procurar o professor em seu gabinete. Bati na porta... Ele: "Eeentra". Abri a porta... Ele, antes que eu falasse qualquer coisa: "Sala 209". "Ok!", pensei. Fui à sala 209 e esperei começar a prova junto com outras 5 ou 6 pessoas. Quando comecei a responde-la, vi que não estava muito difícil. Já surgia uma esperança de passar. Mas eu certamente iria para a final. Mais ou menos por esses dias, a nota da segunda chamada de Física 3 foi publicada: aprovado por média!

Em 29/06/2009, fiz a final de Cálculo 3. Eu precisava tirar 4,66 e não fui muito bem, mas o professor deve ter me dado alguns décimos e eu terminei sendo aprovado; fiquei com média 5,16. No dia seguinte, fiz a final de Álgebra 1. Provavelmente, o resultado de Cálculo 3 saiu antes do de Álgebra 1. Em TGE, Física Experimental e Estatística, eu já havia sido aprovado, por média e com notas boas. Só faltava passar em Álgebra 1, para ir para Cupira feliz. Então, no meu acesso de número 666 ao Siga, vi o resultado: aprovado. (Que fique bem claro: eu não tenho pacto com o demônio.)

Sobrevivi, mais uma vez, pagando 6 cadeiras de uma vez em matemática. Mas a brincadeira havia ido longe demais. Meu histórico escolar já estava bagunçado. Eu não podia continuar levando o curso daquela maneira. Comecei a achar que só deveria pagar três cadeiras no terceiro período, para dar uma estabilizada. Aí eu estudaria sozinho os assuntos de outras disciplinas para que no quarto período eu já pudesse pagar quatro cadeiras, e assim por diante. Comentei isso com Gabriel, ele disse: "Pague cinco, véi. Três é muito pouco. Queres ficar fazendo o que em casa, assistindo porn o dia todo?". Era uma opinião aparentemente sem fundamento, mas eu tinha que levar em consideração. Afinal, o importante era concluir o curso, e quanto mais cadeiras eu pagasse por período (ainda que por meio de atitudes imediatistas e correndo altos riscos de ser reprovado), mais rápido eu me formaria. A ideia de tentar me formar em dois anos e meio era tentadora.


§9. Sophismata

Nas férias, fiz planos para consolidar minhas atividades de ensino. Eu já sabia onde anunciar, só faltava um nome, um logotipo e algumas estratégias de marketing. Pensei logo no nome "Sophismata". Essa palavra eu conhecia desde 2007, quando eu estava procurando um nickname para colocar numa conta do Skype (serviço de comunicação via internet que, até hoje, eu nunca usei). Eu havia tentado "matemático", "mathematician", "lógico", "logician", mas todos esses nicknames já estavam sendo usados por outras pessoas. Então procurei na internet um tradutor online (acho que eu nem sabia que existia a ferramenta de idiomas do Google) e traduzi a palavra "logician" do inglês para o grego. O resultado que saiu foi: "sophismata". Aí passei a acreditar que "sophismata" era "lógico" ("logician") em grego. (Mas não é.)

Passei o mês de julho praticamente todo em Cupira, tendo aulas práticas de carro e moto (através da autoescola, pelo processo de habilitação iniciado no final de 2008) e estudando um pouco de... nem lembro mais o que (foi pouco mesmo). Antes de voltar para Recife, elaborei um logotipo, criei uma conta de e-mail e um blog para a Sophismata Aulas Particulares de Matemática. Também imprimi alguns anúncios para colar nos murais da UFPE e onde mais eu achasse apropriado.

Figura 8: Primeiro logotipo da Sophismata Aulas Particulares de Matemática.



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