Músicas:
- Dezessete e Setecentos - Luiz Gonzaga
- Uma Canção é pra Isso - Skank
- Dani California - Red Hot Chili Peppers
§1. O início da vida acadêmica
Em 2006, a UFPE estava com o calendário atrasado por causa da greve que houve em 2005. Como consequência, o início das minhas aulas lá foi adiado em alguns meses, tempo que aproveitei para descansar, ser operado de cisto pilonidal, fazer um curso de digitação no PC recém-comprado, brincar com o CorelDraw/CorelPhotoPaint, jogar vídeo-game e estudar um pouco de matemática.
Em 04/06/2006, com 17 anos, me mudei de Cupira para Recife. O apartamento, que eu iria dividir com Odair, meu irmão do meio (6,4 anos mais velho que eu), ainda estava sendo pintado, então deixamos boa parte dos móveis fora de casa. O resto das coisas ficou coberto com plásticos, dentro do apartamento, até terminarem a pintura. Era difícil encontrar comida naquele amontoado de bolsas. Só pudemos começar a arrumar as coisas no fim da tarde da segunda, dia 05. Íamos dormir de madrugada, pondo cada coisa no lugar. Foi assim até o início das aulas.
Em 07/06/2006, eu saí de casa pela primeira vez, para conhecer o caminho até a universidade (é perto, dá para ir andando). No dia seguinte, assisti à aula inaugural, no Centro de Informática (CIn). Sala lotada, cheia de desconhecidos que, estranhamente, conversavam uns com os outros. (Nesse tempo, eu ainda não tinha Orkut e não sabia como isso poderia ser usado para conhecer pessoas de uma turma antes de encontra-las pessoalmente.) A turma era composta de alunos de ciência da computação e de engenharia da computação. Enquanto alguns professores falavam como eram os cursos, comecei a achar que estava no lugar errado. Minha sensação foi: “Calma, daqui a pouco abrem-se as inscrições para o vestibular, posso mudar de curso, quem sabe fazer matemática, a concorrência é baixa, ainda lembro boa parte dos assuntos cobrados no vestibular, não perdi nada por estar aqui...”.
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| Figura 1: Meu crachá do CIn. |
Antes de passar no vestibular, eu só me preocupava em estudar coisas do ensino médio; não tinha nenhuma noção de como eram os assuntos de informática que eu iria ver em ciência da computação. Mesmo depois de ter sido aprovado, não procurei saber como era o curso, fiquei me preocupando só com matemática (especialmente, cálculo). Meus conhecimentos tecnológicos eram bastante limitados para alguém que pretendia seguir carreira naquela área. Eu tinha feito uns cursos básicos de informática, sabia usar alguns programas de processamento de texto, desenho vetorial e edição de imagens, mas não tinha muita experiência com computadores. Coisas como “zipar” um arquivo, para mim, era novidade. Nas primeiras aulas práticas de programação, enquanto o pessoal programava em Java, eu ainda estava tentando entender o que era o Eclipse (programa usado para programar), como baixa-lo, como instala-lo e como mexer nele. Os conceitos de programação orientada a objetos não me entravam na cabeça. Comecei a ter uma certa aversão a todos aqueles termos técnicos de informática que eu ouvia na universidade.
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| Figura 2: Interface do Eclipse. |
§2. Calouro, dono de casa inexperiente e estrangeiro
Eu não sabia como devia estudar. Não sabia que livros utilizar, nem como seguir cada um. Na biblioteca, a maioria dos livros era em inglês e eu nem sabia o que fazer para pega-los. Certas burocracias não são difíceis de resolver, o difícil é você perceber que precisa resolve-las o mais rápido possível: descobrir onde é e para que serve a secretaria de graduação; pegar o comprovante de matrícula lá; fazer o cadastro na biblioteca (com comprovante de matrícula e uma foto 3x4); descobrir o que é e para que serve o Siga (site da UFPE onde são divulgadas as notas e outras informações dos alunos); fazer o cadastro nele; observar datas importantes no calendário da UFPE (como as do período de modificação de matrícula); etc.
Quando chegava em casa, tinha serviços domésticos para fazer: lavar pratos, lavar roupas, preparar a própria comida, etc. Tive que aprender a andar no bairro, também: ir a lan houses, supermercados, ver onde tem cada coisa.
§3. Internet à vontade
As lan houses logo se tornaram desnecessárias quando eu descobri que poderia acessar a internet a qualquer hora, nos laboratórios do CIn, gratuitamente e sem limite de tempo. Pela primeira vez na vida, passava longos períodos na internet. Baixava apostilas, navegava pela Wikipédia, acessava a minha conta recém-criada do Orkut, buscava informações sobre cursos de graduação da UFPE (pensando em sair de ciência da computação), mandava e-mails para autoridades da UFPE perguntando sobre equivalências entre disciplinas, etc.
Eu e Odair compartilhávamos um computador, no apartamento, mas só teríamos internet em casa meses depois, no fim do período. Tudo o que eu baixava no laboratório eu levava para casa em disquetes ou, algumas vezes, no mp3 player de Odair (que eu também usava para ouvir Luiz Gonzaga).
§4. Resultados preocupantes
Enquanto isso, o semestre rolando, e nada estava indo muito bem
- Introdução à Programação (IP) era, de longe, a disciplina onde eu estava mais perdido. Eu tinha pena dos monitores tentando me explicar as coisas. Não tinha como entender sem praticar e ler, não tinha como praticar sem entender e não tinha tempo para tentar entender lendo e praticando.
- Introdução à Computação (IC), a cadeira teoricamente mais fácil do período, tinha listas de exercícios chatinhas, com perguntas que eu não sabia onde pesquisar para responde-las, e eu gastava muito tempo para resolve-las.
- Apesar de ter estudado limites e derivadas alguns meses antes de entrar na universidade, minhas notas em Cálculo Diferencial e Integral 1 eram medíocres. As provas não eram muito difíceis, mas eu mal estudava para elas, em parte por estar preocupado com as outras cadeiras, e também por não gostar de estudar as coisas pela metade, vendo só o que provavelmente vai cair na prova.
- Matemática Discreta para Computação era interessante, até se falar nas aplicações. Havia muito poucos livros sobre aquele assunto na biblioteca, e os que tinha eram em inglês. De vez em quando, tinha miniprovas (também conhecidas como testinhos) valendo parte da nota, e eu quase nunca estava preparado para faze-las.
- Álgebra Vetorial e Linear para Computação era uma mistura de Geometria Analítica e Álgebra Linear 1. Tive dificuldade em assimilar os assuntos mais abstratos (base e dimensão, autovalores e autovetores, etc.). Eu também errava muita conta e me enrolava na hora de justificar as resoluções das questões das provas. Assim como em Matemática Discreta, tinha miniprovas. Na primeira delas, pediram, entre outras coisas, a equação de um plano, dados um ponto e um vetor normal dele. Eu pensei: “Huum, um plano é uma generalização de uma reta para R³, acho que posso deduzir isso”. Tentei, tentei, e nada. Tirei 0,05 (valendo de 0 a 1,0) porque tiveram pena de mim. Depois, vi que existia uma fórmula simples para aquilo, que o professor tinha dado em sala de aula e que também tinha no livro que eu estava seguindo, mas eu ainda não tinha chegado naquele assunto.
Em 28/07/2006, eu desisti de Introdução à Programação. Desistir, àquela altura, significava abandonar as aulas, faltar às provas e deixar ser reprovado; o período de modificação de matrícula já tinha passado. Assim, eu esperava ter mais tempo para me preocupar com as outras cadeiras, que também estavam ameaçadas.
§5. O problema da corda suspensa
Um dia, provavelmente no final de agosto, acordei disposto a pensar sobre um problema interessante: qual é a curva que uma corda descreve quando suspensa por suas extremidades num campo gravitacional uniforme? Eu tinha essa curiosidade desde o terceiro ano do ensino médio, simplesmente por ter notado uma semelhança dos varais da minha casa com arcos de parábolas. Na universidade, eu já sabia usar limites, então achei que poderia começar a tentar resolver o problema modelando uma corda como um sistema formado por várias partículas de mesma massa, unidas sequencialmente por fios inextensíveis, de mesmo comprimento e massas desprezíveis (Fig. 3). A forma da corda suspensa seria então o limite das formas dessas cordas discretizadas suspensas conforme o número de partículas aumentasse uniformemente mantendo a massa total constante. Fazendo isso, eu esperava encontrar uma parábola. O que eu não sabia é que esse era um problema clássico e que, 400 anos (aproximadamente) antes de mim, Galileu Galilei tinha tido a mesma conjectura.
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| Figura 3: Corda discretizada suspensa pelas extremidades. |
Em 01/09/2006, durante uma aula de Cálculo, estudei a posição de equilíbrio de uma corda discretizada com 5 partículas, duas delas, as das extremidades, fixadas à mesma altura. Nada que uns diagramas de força, com algumas aplicações das leis de Newton, não resolvessem. No entanto, nenhum caminho até uma generalização conveniente para n partículas me parecia viável.
§6. O fim do período e a vontade de mudar para matemática
Mesmo tendo passado o resto do período se preocupando apenas com quatro cadeiras, só consegui ser aprovado por média em Cálculo 1 (com média exatamente 7,0). Fui para a final nas outras três restantes (até em IC!), passei em todas elas, mas quase reprovei em Álgebra Linear. Era evidente que alguma coisa estava indo errado. E o problema resolvível mais fundamental, ao meu ver, era o curso que eu tinha escolhido.
Desde o primeiro momento em que pensei em mudar de curso, lá na aula inaugural, minha ideia era ir para o bacharelado em matemática. Pensei em outros cursos, também: engenharias, licenciatura em matemática... Mas o que eu queria era o bacharelado em matemática e se fosse fazer outra coisa, provavelmente ficaria insatisfeito do mesmo jeito.
O primeiro problema de mudar para a matemática era (pelo que o povo falava) a questão financeira. Todos diziam que era uma loucura sair de ciência da computação para fazer matemática. Minha família também não gostou da minha ideia. Eu me perguntava pra onde tinham ido aqueles que costumavam dizer que o importante era a pessoa fazer o que gosta. O segundo problema era a questão “Será que eu vou servir para alguma coisa na matemática?”. Do jeito que eu ia, apanhando feio nas provas de Álgebra Linear e Matemática Discreta, era meio estranho querer ser um matemático.
As incrições para o vestibular abriram, fecharam e eu não me inscrevi. Era meio arriscado ignorar os conselhos de todo mundo. E também, achei que no segundo período de ciência da computação, já mais habituado à vida universitária, eu iria me sair melhor. Aí depois de formado, eu poderia fazer matemática só por hobby.



Lendo esse seu capítulo primeiro encontro-me também eu identificado com parte do que está escrito. Tanto tempo passou tão rápido...
ResponderExcluirA descoberta do Sig@, do Pergamum, dos corredores com tantos livros da biblioteca do CCEN, tudo isso foi muito bom e hoje sinto saudade da inexperiência, da sensação esquisita e boa de conhecer uma coisa nova que vai lhe acompanhar por muitos anos.
Não sabia que você tinha pensado em desistir do Cin tão cedo. Aula inaugural! Isso é surpreendente.
Lembra que a gente discutiu o problema da catenária (5 anos depois, sabemos por nomes bonitos nas coisas não é mesmo?) na biblioteca naqueles tempos? Eu pensei que você tinha solucionado, através de um limite de poligonais... Uma solução sua nessa linha ficou gravada na minha cabeça, lembro até do desenho em papel de rascunho. Não foi assim que aconteceu não?
Aguardo ansioso os próximos capítulos. Novamente, boa sorte!
Caramba,isso me lembra meu primeiro semestre como aluno da engenharia, eu nao fazia a mínima ideia de como tudo funcionava, a minha sorte é que na biblioteca do CTG tinha uma funcionária muito gente boa que teve a paciencia de passar a tarde me explicando sobre as coisas do site da biblioteca e etc. Aqueles livros todos, lembro que pegava um bocado deles e ia lendo pra ver qual eu curtia mais... Enfim,bons tempos! Bons tempos!
ResponderExcluirPS.: Mudei de curso e hoje faço matemática e me formo na mesma turma do carinha dono desse blog!
É... vocês viveram a parte da descoberta das coisas da universidade e, pelo jeito, gostaram. Eu não gostei tanto não, estava muito perdido e sem noção. O acervo da biblioteca MEI, naquele tempo, para mim, era um bocado de livros estranhos, escritos numa língua chata... Mesmo assim, achava os de matemática interessantes (não tanto quanto hoje), então eu passeava muito pelo acervo, dando uma olhada neles (hábito que mantenho até hoje). Eu também gostava de dar uma olhada nos livros científicos (sobre ciências naturais) que via na biblioteca de Física e Química.
ResponderExcluirO capítulo sobre a catenária já está pronto, é o terceiro, e dispõe de uma nota (em pdf) sobre a dedução. O segundo capítulo também já está pronto. Vou só dar um tempinho, enquanto preparo outros capítulos, para manter o tempo entre as postagens aproximadamente uniforme.